É agora. Não há mais dúvidas, não há hesitações. Ou pelo menos não deveriam haver. É agora, está na altura de aceitar (sim, porque estava a distrair-me um pouco da verdade, não era?) e arranjar coragem para enfrentar olhos nos olhos e fazer aquilo que tenho de fazer. Fazer, pelo menos uma vez, aquilo que sempre quiseram que fizesse; erguer a cabeça e exigir aquilo que é meu de direito, perder os receios e largar os rodeios e encarar o touro bem de frente.
O problema é que custa. Pode não significar nada, mas custa e eu não sou corajosa. Mas enfim, a dor passa. Não é isso que me preocupa. Porque, por mais que doa, passa sempre, nem que demore dias, semanas, meses, mas passa. O meu problema são as cicatrizes que ficam, que me fazem pensar nas realidades alternativas que eu podia estar a viver. Os ‘e se?’ que destroem as pessoas. As dúvidas, as perguntas.
E seria pedir muito viver em paz? Dizem que antes da bonança vem a tempestade, mas esta é uma tempestade que dura há muito, há demasiado tempo. Seria pedir demais, pedir por uma bonança? Ou uma pausa, pelo menos. Algum descanso. Menos apertos no coração, menos desgostos. Menos lágrimas. Menos dores. Menos cicatrizes. Começo a pensar que nunca serei totalmente livre para ser quem sou, já que passei tanto tempo debaixo desta tempestade que me tornei num ser sério, absurdamente cabisbaixo e tristonho. Mais amargo do que seria aconselhável.
E ainda assim, parece que a minha mente não se cansa de tornar as coisas mais difíceis. Preocupações, pensamentos a mais, voltas e voltas sem fim, perguntas sem respostas, e se…? Não consigo parar este frenesi, uma correria sem fim, esta máquina que não se desliga. Acordo todos os dias assim e vou dormir todos os dias assim. Se nem eu própria consigo aliviar-me de cargas desnecessárias, quem poderá?
Às vezes sou eu mesma demais. Queria ter o poder de não me preocupar, de dizer ‘não quero saber’ e realmente fazê-lo. Não me importar. Desviar o olhar como se nada fosse. Mas não é nada. E é isso que me custa.